Shibari: presa ao prazer da liberdade

Shibari: presa ao prazer da liberdade

Sempre senti que tinha gostos particulares, ou, pelo menos, pouco comuns. A vontade de experienciar situações que me testam e me levam ao limite sempre esteve presente em mim. Talvez por ser curiosa. Talvez por gostar de explorar sensações e emoções. Talvez por gostar de me testar. Talvez por tudo isso junto. Não será, por isso, estranho dizer que me apaixonei pelo mundo das cordas.

“Shibari é um verbo japonês que significa literalmente amarrar ou ligar. É uma expressão que tomou um sentido diferente no século XX, quando o uso da corda começa a ser utilizada no contexto erótico. (…) Kinbaku é a palavra japonesa para “bondage”. Kinbaku é um estilo japonês de amarração sexual.”

Posso dizer que, recentemente, tive o meu primeiro contacto com o mundo das cordas. Shibari…a arte do bondage japonês. Provavelmente como muitos de vocês, a minha ideia sobre o tema era bastante depreciativa. Especialmente eu, que não suporto que me restrinjam os movimentos e me impeçam de mover…que entro em pânico se alguém me prende um braço. Adicionalmente, fazia associações a tortura e a masoquismo de elevado nível.

Há alguns meses atrás, numa noite entre amigos, perguntaram-me se já havia sido suspensa, ao que respondi que não. Nem nunca tinha sido atada, na verdade. Nunca tinha sentido curiosidade por cordas, nem mesmo pela arte do shibari em si. Mas a resposta foi clara: “não podes sair daqui hoje sem ser suspensa”. Ri-me. De início, não liguei muito ao assunto e sei que pensei que iria controlar-me para não entrar em pânico e não bater em ninguém. Sabia que não iria gostar que me prendessem. Seria rápido, teria a experiência e acabava ali. Afinal, eu olhava para as cordas e não sentia nada.

Enganei-me.

A minha primeira experiência com as cordas foi bastante intensa. Não sei se por não esperar nada de positivo e, consequentemente, acabei por estar totalmente recetiva e aberta ao que quer que me fosse acontecer. Sempre senti que era bastante recetiva espiritualmente e às energias que me rodeiam, mas isto ultrapassou tudo. Cada corda apertada com força deixava-me uma estranha sensação de conforto, como se estivesse a ser abraçada com toda a força do mundo. E ali estava alguém…a tomar conta de mim…e apenas de mim. A tomar atenção a mim…e apenas a mim…E, de repente, estou no ar e nada à minha volta existe. Tudo desaparece. Com os olhos fechados, apenas me lembro de sentir a energia de quem me atava, como se estivéssemos separados do resto do mundo. O resto era um vazio, uma leveza, um nada repleto de tudo, uma dimensão nova. Sem problemas. Sem preocupações. Sem nada. Fora da realidade. Fora do mundo. Não havia ninguém à minha volta. A paz de espírito era transcendente e eu não queria sair dali. Sweet subspace.

Nessa noite não consegui dormir e no dia seguinte andei de um lado para o outro, entre consultas médicas e concertos, como se observasse o mundo de fora, e o meu pensamento continuava preso na noite anterior. Por mais que tentasse, não conseguia concentrar-me noutra coisa, pensar noutra coisa, falar de outra coisa, fantasiar sobre outra coisa. Cordas, cordas e cordas! Ria-me sem razão, a vida parecia-me ridiculamente perfeita e estava em paz como nunca antes tinha estado. Parecia uma autêntica bebedeira de felicidade. Tenho ideia de ter estado assim durante três dias, até retomar à realidade. E aí? Aí, a “ressaca”. Já nada era tão bonito, tão perfeito. Aquele choque com o mundo real não soube muito bem.

Shibari é muito mais do que aquilo que se possa imaginar. É um mundo à parte para o qual as cordas nos transportam. É um misto de diferentes prazeres, sendo o maior de todos eles, para mim, a leveza e paz profundas jamais encontradas noutro local. Experiências e sensações que não devem nem podem ser desprezadas em prol de um tabu.

As cordas são um bichinho que fica para quem as conhece. Tenho, felizmente, a oportunidade de o fazer com um dos melhores, pelo que me sinto muito grata.

Alguns artigos:
The Guardian, 2016 –
Shibari: pushing boundaries in the ancient Japanese practice of knot tying
Diário Digital, 2016 – Erotismo y arte se entrelazan en el Kinbaku japonés
Science of Us, 2015 – Can Bondage Play Reduce Anxiety?
Rope Connections, 2015 – 10 Surprising Benefits of Rope Bondage

Leave a Reply

Your email address will not be published.