Que a voz interior fale mais alto que a mente acomodada

Pé na terra molhada

 

Planta do pé descalço bate no chão molhado. Faz-me sentir a vibração do sentimento que, de tão forte, me força a ajoelhar. Agarro a terra molhada com as mãos. Esfrego-as, estendo-as ao alto, deixando-a cair entre os dedos, sobre mim. Embrulho-me na terra. Esfrego os cabelos, arranho o piso e perco metade de mim. A outra metade observa-se, tentando dar-lhe a mão para que se levante. Mas eu não a vejo e viro costas, de forma inconsciente, apesar da consciência interior. Metade de mim está quebrada. Metade tenta colar os pedaços, arrancar-me do conforto da sujidade.

“Vem.”
“Não.” – respondo-me – “Não quero.”
“Queres. Tu queres. Só não sabes que consegues.”

Sinto a água da chuva escorrer pela cara.
Dou a mão a mim mesma. Puxo-me.
Sou puxada e levanto-me. Levanto-me sozinha. Levanto-me porque consigo. Porque apenas não queria deixar a terra molhada e abandonar o conforto. E a magia está em fazer com que a voz interior fale mais alto que a mente acomodada.

E o sol nasce.

T

2 Replies to “Que a voz interior fale mais alto que a mente acomodada”

  1. A mulher de tacão alto

    Verão encharcado, de cheiro a mofo e a terra molhada. Passos rápidos,
    corridas curtas, rostos enfrenesiados de quem se esqueceu do guarda-chuva já guardado para o próximo outono.

    A mulher das sandálias de tacão alto molhou os pés numa poça inesperada e franziu o sobrolho de desagrado. Acordara de inquietantes sonhos negros e esperara a claridade alegre do sol para lhe iluminar o dia que, afinal, se
    revelava cinzento e molhado. Também ela tinha já recordações a cheirar a
    mofo, recordações de felicidades contrariadas que teimavam assomar à
    janela da sua memória; recordações de mágoas, de dores consentidas, que
    calcava vigorosa e insistentemente com golpes do maço do esquecimento.

    O dia estava uma merda e não ajudava em nada.O guarda-chuva não tinha
    pega e o seu difícil manuseamento provocara uma molha que lhe colava o
    cabelo ao rosto contrariado. Decidiu , porém, ludibriar o aborrecimento,
    já confortavelmente instalado desde o toque do despertador, e sorrir
    abertamente aos transeuntes que com ela se cruzavam, esperando
    intimamente que o bendito sol ainda se revelasse e sorvesse a chuva que,
    implacavelmente, lhe sombreava e esfriava o espírito. Sorriu para si
    própria, imaginando como seria se pudesse mudar a força dos elementos.
    Interiormente, haveria sempre, contudo, a possibilidade de evitar a
    influência negativa deste molhado dia cinzento e de fazer nascer luz
    morna, apaziguadora e dizimadora de recordações penosas a cheirar a
    mofo.

    FB (direitos de autor)

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