Evolução tecnológica: os smartphones e a desconexão da realidade

mundo virtual

São vários os artigos a respeito das mudanças trazidas pelos smartphones e outros dispositivos semelhantes, da era digital. Apesar da comunicação se ter tornado muito mais acessível e rápida, até que ponto terá isso contribuído para uma maior ligação entre nós e uma melhor preservação dos relacionamentos que mantemos? A desconexão da realidade parece óbvia.

Há dias observava um post, no Bored Panda, intitulado Death of Conversation: 22+ Images of How Smartphones Take Over Our Lives, e foi impossível ficar indiferente perante tais imagens, que não são mais do que caricaturas da nossa realidade.

É estranho pensar que algo que facilita a comunicação está a arruinar relacionamentos. Mas a verdade é que está. Sou um exemplo disso. Bem como a minha família, amigos e conhecidos. Olho à minha volta e é raro o momento em que alguém não tenha um smartphone na mão.
Ainda me lembro de quando não havia telemóveis e, mesmo assim, não havia qualquer problema de comunicação para se combinar encontros e saber as notícias do dia.
Em casa, conversava-se, brincava-se, riamos. Com os amigos, telefonava-se do telefone fixo para saber das novidades ou combinar os encontros. Aos 15 anos tive o meu primeiro telemóvel. Com isso veio a comodidade, o facilitismo e a rapidez da comunicação. Com os preços elevadíssimos dos tarifários praticados na altura, recordo como se tornou moda “dar um toque” a um amigo e desligar de seguida. Esse amigo receberia o toque, como sinal de “lembrei-me de ti”, e respondia do mesmo modo, como que dizendo “estou bem”. Paralelamente, tinha crescido o mundo da Internet, sem as redes sociais de hoje, mas com o famoso e inesquecível mIRC, que nos permitia entrar em salas de chat, sem sabermos quem estaria do outro lado, e conversar, facilitando a convivência com novas pessoas, o aumento do ciclo de amigos e tornando emocionante o simples facto de se receber uma mensagem (de sabe-se lá quem) a perguntar “dd tc?” (“de onde teclas?”). O abreviar entrou na moda e a Língua Portuguesa caía, à medida que muitos desaprendiam de escrever. Com a redução das tarifas das telecomunicações, e consequente aumento das SMS enviadas, onde se tentava escrever o máximo possível numa mensagem de texto, para poupar dinheiro, estas mensagem tornaram-se autênticos códigos! “pfv vem ter cmg a xkola kd sairs da xplikaçao xtou a tua xpera jnto ao patio vrmlho”! Meu Deus! Acredito que muita gente desaprendeu de escrever a sua própria língua e, muitas vezes, aproveitava as aceites abreviaturas para não se dar ao trabalho de confirmar se “assento” seria com dois S ou um C. Afinal, “axento” resolvia o problema. E k bem k fica à noxa vista. Good Lord! Felizmente, essa “moda” caiu por terra com as SMS a tornarem-se gratuitas, apesar de acreditar que muita gente ainda recorre a esse “método” por preguiça (quero eu acreditar que seja essa a razão!). Tenho a dizer que um homem k me xkreve axim perde logo todo e qualquer interesse. Mas que idade tens? Ficaste preso na era do XK-Addiction (Dependência dos X e dos K). Ah, espera, o teu telemóvel tem um problema com restrição de caracteres ou o teu tarifário ainda é antigo? – Vamos já mudá-lo! É mais grave, problema nas articulações dos dedos e não podes escrever muito? Ok, então entendo (mas, mesmo assim, evita as SMS e telefona, caso o texto se preveja longo). Ah, não se prende com nenhuma destas razões? Então … És mesmo estúpido e ignorante, é isso? Meu querido, vai escrever “crtax de amr” a outra.

Bom, mas com as SMS gratuitas e, posteriormente, chamadas gratuitas, o vício do telemóvel tornou-se alucinante. As pessoas tornaram-se dependentes (eu incluo-me no pacote!) de mandar mensagens por coisas ridículas e, pior, dependentes de controlar o outro. Mensagens de texto como “onde estás?” ou “porque não me respondes?” tornaram-se banais. Sem nos apercebermos, estávamos a permitir que invadissem a nossa privacidade, a deixarmo-nos controlar e a fazer o mesmo àqueles com quem nos relacionávamos. Para além do controlo, a não necessidade de ter que “ver e estar com a pessoa” passou a ser vista como um benefício, pois uma simples mensagem substituía um telefonema ou um encontro. Com as redes sociais, a situação agravou-se: mensagens instantâneas, possibilidade de se saber ao minuto o que o outro estava a fazer e, com os smartphones, interligação total entre mil e uma aplicações que nos permitem manter contacto rápido e constante com qualquer pessoa. Maior controlo também: “apareceu lido e não me respondeste”, “estiveste online e não me disseste nada” ou “comentaste no perfil da pessoa X!”. Wow! Como nos deixámos influenciar deste modo? Felizmente, nesse aspeto, não me sinto muito “controlada” pelo mundo virtual, uma vez que, assim que me apercebi do seu malefício, tomei uma decisão: nas minhas relações não vou andar a “cuscar” comentários feitos, comentários recebidos, perfis de amigas e das amigas das amigas e dos gostos colocados na foto daquela noite em que nem nos conhecíamos! Porquê? Porque todos nós temos amigos, conhecidos, ex, passados, comentários – feitos e recebidos – e, mesmo que queiramos ter cuidado, em relações presentes, em apagar conteúdos que possam “magoar” a pessoa, há SEMPRE alguma coisa, no mais fundo e profundo das mais ínfimas entranhas do século mais que passado que se pode encontrar e não gostar. Porque todos temos direito a não gostar. Mas todos temos, também, as várias fases da nossa vida e, naturalmente, não andamos a fazer um balanço, no final de cada ano, a tudo o que foi publicado e eliminar o que poderá afetar terceiros. Até porque NÃO tem que ser assim! Todos nós temos uma vida e permitirmos que os benefícios do mundo virtual sejam arruinadores de relações, utilizando-os como eficazes (ou não) meios de stalking, é arruinar qualquer base de confiança. Isso, a confiança…”tu dizes que..mas no Facebook está isto”. Encontrar “podres” não é difícil, até porque a nossa imaginação é imensamente fértil e nós somos peritos em fazer histórias (e eu sou tão boa nisso!). Por isso, assim que vi o perigo de utilizar as redes sociais como ferramenta de investigação, afastei-a. Há, inclusive, quem me tenha chamado a atenção para “não viste o que publiquei” (sinónimo de “não te interessas por mim”). Mas não. Vejo o que aparece no meu feed e não tenho o hábito de andar à procura do que não há – para fazer parecer haver. E não me venham falar do comentário do fulano X, na foto Y, no ano de 200Z. Aí expludo e é melhor, mesmo, não estarmos face-to-face, pois perco a educação toda quando me fazem, desculpem a expressão, passar dos carretos com coisas insignificantes e ridículas. Ah e os bloqueios: vamos a ver e a pessoa não apenas já não aparece na nossa lista de amigos, como…não aparece! O que aconteceu? Fomos bloqueados! Tipo “on” e “off”. Hoje gosto de ti. Amanhã não. E por aí fora. E quando a razão é “pessoa Z não pode ver que sou amiga de fulano Y”, melhor ainda. Ao que chegámos.

Mas o mundo virtual não veio para facilitar?

E pronto, chegamos ao cerne da questão: os smartphones, que fazem tudo! Até publicam, em tempo real, as minhas pernas a apanhar sol numa qualquer praia paradisíaca, para te roeres, cheio de inveja, enquanto trabalhas. Mas isso não é o pior…o pior é que já estamos tão habituados a comunicar virtualmente, que desaprendemos como conversar e agir socialmente. Não nos encontramos com os amigos porque sabemos que “está tudo bem” porque “temos visto os posts da pessoa” e, mesmo em casa, é mais fácil enviar uma mensagem de texto do smartphone – que não largamos – do que deslocarmo-nos até outra divisão da casa, para fazer uma simples pergunta. As crianças deixaram de brincar na rua, com Legos ou com outros brinquedos didáticos, para estarem agarrados a tablets. O contacto pessoal perde-se. Os relacionamentos quebram. Estamos viciados no mundo virtual e não damos conta de que isso nos está a fechar, completamente, para a realidade. É tão mais fácil arranjar desculpas para não sair de casa, estar sempre ocupada/o e enviar uma simples SMS. Eu que o diga. Mas quando o nível de dependência afeta, inclusive, o modo como são alimentadas as relações interpessoais, então, aí, o caso agrava. Vamos marcar um café para se estar agarrado ao chat do Facebook? Vamos passear com amigos para estar, constantemente, a tirar selfies para o Instagram? Vamos jantar fora para tweetar cada passo que damos? Vamos estar com alguém para dar mais importância a um smartphone e ignorar por completo quem está à nossa frente?!

Penso que é tempo de acordarmos para a realidade. Tudo tem conta, peso e medida. Nada é benéfico em excesso, nem mesmo a facilidade de comunicação, se a utilizamos para destruir relacionamentos.

T.

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