As tatuagens, a autoexpressão e o emprego

Tatuagens e autoexpressão

As tatuagens e o mercado de trabalho estão longe de ser um assunto resolvido e ultrapassado. Apesar de cada vez mais pessoas se revelarem tatuadas, isso não parece alterar a mentalidade da sociedade.

Não é a primeira vez que falo deste tema. Há uns anos, na Complexo Magazine, escrevi sobre o assunto. Na verdade, poderia passar horas a escrever linhas sobre o tema. Sou tatuada e este post revela a minha experiência pessoal…

Há quem diga que é arte. Há quem diga que é moda. Há quem diga que é um vício. Em parte, concordo com todos.

Para mim é, sem qualquer dúvida, arte, mas, naturalmente, refiro-me a tatuagens com qualidade. É como tudo: escrever é uma arte, para quem escreve bem. Pintar é arte para quem pinta bem. Dançar é arte para quem tem ritmo e consegue contagiar-nos. Cantar é arte para quem tem boa voz. Por que não podem ser as tatuagens, então, consideradas arte? Esqueçamos a falta de qualidade, pois não estou a chamar arte às tentativas de grafites, onde algum spray é lançado numa parede, ao acaso, dando má reputação ao mundo de quem as executa na perfeição. As boas tatuagens seguem a mesma lógica: a perfeição requer técnica, prática, dedicaçãogosto.

É aqui que entra o meu conselho: nas tatuagens, não procure o mais barato, pois o barato de hoje pode sair muito mais caro que o caro inicial. Mas porque é cara uma boa tatuagem? Se o trabalho tem qualidade é sinal que há mais dedicação, concentração, preocupação e detalhe! Anos após ter feito a minha primeira tatuagem tive que pagar mais para a refazer do que tinha pago, inicialmente, para a fazer. Saiu mais barato? Não. Saiu mais caro do que se tivesse, de início, apostado em procurar experiência e qualidade. Antes de mais, sejam exigentes, pois trata-se de uma marca para a vida. Pesquisem os trabalhos de cada artista antes de se meterem em trabalhos. Bom e barato não existe.

Acredito que muita gente coloque em consideração uma primeira tatuagem por estarem na moda e não propriamente por haver algum significado. Posso dizer que todas as que tenho possuem o seu significado e o que mais me cativa é mesmo isso, os nossos significados e sentimentos ocultos, expressos através de tinta no nosso corpo. Uma vez, disseram-me: “o teu corpo conta uma história, cada pedaço de ti é descobrir quem tu és”. And that, my friends, is so fucking true. Porque, efetivamente, cada pedaço de tinta em mim expressa emoções e sentimentos…Ter uma tatuagem não é, obrigatoriamente, sinónimo de rebeldia, de delinquência, de pessoa que não é de confiança ou de mulher vulgar. Há que entender que quem ama o mundo das tatuagens o vê como autoexpressão. Pelo menos, eu vejo-o como tal. Talvez por isso tenha algumas – e ideias constantes para mais.

As tatuagens, a autoexpressão e o empregoAs tatuagens, a autoexpressão e o emprego

Estamos numa sociedade com liberdade de expressão, então por que raio nos ‘cortam as asas’ e nos impedem de exprimir livremente? Porque somos alvo de preconceito? Porque nos apontam o dedo? porque nos olham de lado? Porque tenho eu que ir a uma entrevista de emprego toda tapada para ter a possibilidade de ser selecionada? O meu corpo é meu e, no entanto, limitam-me e criam-me barreiras. Porquê?

Apesar de ser um tema que me revolta imenso, entendo que, dependentemente da função a que se candidata, a empresa poderá ser livre de dispensar uma pessoa tatuada, mas – e apenas – em situações de contacto direto com o público, na qual o colaborador tenha que ir ao encontro da imagem corporativa da instituição (e aqui entra, por exemplo, o setor bancário). Mas há que haver bom senso! Caso não se preveja contacto com o público, por que razão me hão-de dispensar, logo à partida, por ter tatuagens? Isto faz sentido? Mesmo que esteja em contacto com o público, tudo tem conta, peso e medida. Não sou a favor de extremismos.

Há que haver consciência de qual a nossa área profissional, o que isso implica e que locais do corpo não convém terem tinta, mas os empregadores também deverão abrir a mente.

Tenho várias tatuagens, tenho o bom senso de as conseguir tapar a todas, sem qualquer problema, mas também tenho a sorte de trabalhar numa empresa que não me julga menos profissional por tê-las e não me obriga a cobri-las. Sim, sou uma privilegiada, mas sei que um dia posso não ter tanta sorte com outros possíveis empregadores e, por isso, cada tatuagem que acrescento tem que ter em consideração a típica questão “posso cobri-la facilmente?” e, sinceramente, isso revolta-me, pois não deixo de ser a profissional que sou, não deixo de ser a pessoa íntegra que sou nem deixo de ser responsável por ter tatuagens. Já dizia o outro “as tatuagens não fazem de mim delinquente, assim como a gravata não faz de si uma pessoa decente”.

“Fica mal”, “fica feio”, “não gosto”, “parece X ou Y”, “deve consumir drogas”, “não é de confiar”…Quantos de nós já ouvimos isto? Primeiro, penso que todos sabem que ‘as aparências iludem’, que não se deve ‘julgar um livro pela capa’ e que o mundo está cheio de preconceitos baseados em estereótipos. Segundo, qualquer problema que isso acarrete pertence a quem adquire a tatuagem e não cabe a terceiros o papel de formular juízos de valor. Por último, gostos não se discutem (coisa básica!!).

As tatuagens, a autoexpressão e o emprego

Entristece-me ver uma sociedade, em pleno século XXI, apontar tanto o dedo às tatuagens e limitar as nossas opções profissionais. Tatuei-me, pela primeira vez, há cerca de 10 anos e não me arrependo de nenhuma, até hoje, talvez por acreditar que seja tão importante não se fazer tatuagens “por fazer”, mas apenas se se apreciar a arte e se a tatuagem tiver significado.

Para quem admira o mundo das tatuagens, aprecia os momentos de bzzzz e gosta de se exprimir desta forma, pensem estrategicamente em que local do corpo o podem fazer, caso possam vir a enfrentar a necessidade de cobri-las, pois, infelizmente, esta é a nossa realidade e ao que somos forçados.

Aos empregadores fica uma questão no ar: preferem um colaborador tatuado que seja profissional e responsável ou um colaborador não tatuado que se revele preguiçoso e sem vontade de trabalhar?

Já sei, a imagem da empresa…!
Como já referi, cada caso é um caso, mas uma coisa garanto: se um dia eu entrar num avião e vir uma hospedeira tatuada, eu vou sorrir. Se um dia eu entrar num banco e vir um colaborador tatuado, eu vou sorrir. Se um dia eu for ao hospital e vir um médico tatuado, eu vou sorrir.

Eu…e mais uns milhões.

T.

4 Replies to “As tatuagens, a autoexpressão e o emprego”

  1. Concordo plenamente com tudo o que disseste! Ainda não tenho tatuagens, mas pretendo fazer, e o meu maior receio é mesmo esse. Tirei um curso que implica contacto com qualquer tipo de público e que pode ou não limitar-me. Foi a mesma coisa com o cabelo colorido (menos permanente, facilmente reversível, mas que considero que faz parte de mim como, sei lá, um braço). Se bem que, dependendo do tipo de público (como o caso das crianças), este pode ser apreciado e até uma forma de criar algum contacto com o mesmo. Durante o meu estágio, as crianças adoravam o meu cabelo, e até as educadoras achavam piada. Quanto a tatuagens, não sei como seria. Quanto à imagem da empresa…bem, talvez até fosse beneficiada. Poderia ser considerada progressista e mente aberta, o que nos dias de hoje, não é completamente mau, e levaria a que imensas pessoas tivessem todo o gosto em ser colaboradoras. É triste vivermos numa sociedade em que algo que não influencia em nada a prestação da pessoa na empresa, seja olhado com tanto preconceito. Na volta é preciso acontecer como em Inglaterra e alguém ser assassinado por algo tão simples como seguir o seu gosto pessoal (gosto esse que a sociedade considera “de mau gosto”), para este país abrir os olhos…

  2. Penso que, nesse aspeto, tens muita sorte do teu público serem crianças, pois são as que menos nos julgam, gostando e tendo curiosidade de ver e mexer! Pelo menos, é o que acontece comigo. Se mostrares isso, é um benefício para ti 🙂

Leave a Reply

Your email address will not be published.