A geração dos 30 e a precariedade em Portugal

precariedade em portugal

Por vezes sonho em ir ao meu encontro. Sem destino. Largar tudo, apanhar um avião para uma ilha longínqua e viver com a maior simplicidade que a vida nos pode dar: sem roupas da moda, com chinelo no pé, sem tecnologias que nos impeçam de socializar e a vender caipirinhas ou cachorros na praia.

Passamos a vida a vê-la passar, mas sem a sentir. Ora deprimimos sem emprego, ora somos forçados a entrar nos estágios profissionais que ocultam o desemprego, ora somos obrigados a ir trabalhar para fora – para receber dinheiro e para sermos valorizados. Com sorte, e para os que cá sobrevivem, passados uns anos, lá conseguimos um trabalho em que recebemos – para fazer  o que nos mandam – continuando na precariedade, atrelados aos pais e sem qualquer estabilidade. Resumindo, a nossa geração dos 30.

Depois queixam-se que a percentagem de idosos está a aumentar, que não há jovens e, muito menos, crianças a nascer.

Já fui muito defensora do que é nacional, mas, sinceramente, o que pretendem que eu defenda? A corrupção? A precariedade? Roubar aos pobres para dar aos ricos? O facto de se ocultar o desemprego, mandando os jovens para fora do país e criando estágios profissionais dos quais as empresas usam e abusam para ter trabalho de borla (porque até dá jeito)? Os salários “é o que dá” que para nada dão? Ou devo defender o facto de que quando me iniciei no mercado de trabalho ganhava mais de mil euros, depois passei para um estágio com “ajudas de custo”, seguidamente, para um onde nada recebia e, posteriormente, para um onde ainda tive que pagar para trabalhar?

Estou prestes a fazer 30 anos. Não tenho casa, nem marido, nem filhos e, muito menos, estabilidade e possibilidade para pensar sequer nessa hipótese.

Não consigo ter uma visão cor-de-rosa do futuro. Sou sincera. Imagino que, entretanto, os jovens acabarão lá fora, por mais que lhes custe, os idosos de hoje darão lugar a vocês que, meus senhores, hão-de ficar aqui sozinhos – sem a geração que vos daria jeito apoiar e que vocês apenas afastam.

precariedade em portugal

Tenho a sorte de poder contar com os meus pais. Muitos não a têm. Mas eu não sei bem se Portugal julga que, mesmo quem tem estas possibilidades, se sente bem em casa dos pais e completamente dependente. Trabalho, ganho pouco…o suficiente para sobreviver, continuando dependente – porque não pago água, não pago luz, não pago gás, não pago renda, não pago alimentação e não tenho filhos.

Sempre lutei por ficar no meu país e, por isso, me sujeitei a estágios não remunerados e afins. Muitas vezes ouvi “porque aceitas?”. A resposta é simples: se eu não aceitar, haverá alguém que o fará, por isso, o meu “não” nada muda. A situação apenas mudaria se todos dissessem “basta!”, o que não acontece, pois, para quem quer trabalhar no que gosta, ou aceita as condições ou outro aceita, criando uma bola de neve e um ciclo vicioso, a favor dos empregadores. Perante isso, fui construindo o meu currículo com estágios e mais estágios, apoiando-me em formações complementares (suportadas pelo meu próprio bolso, naturalmente) para não desaprender o que aprendi e me manter atualizada. Afinal, contratarem alguém especializado numa área mas que não pode mudar uma vírgula numa empresa é também o pão nosso de cada dia.

O país há muito que não oferece estabilidade. Lembro-me de que, quando me licenciei, sendo apaixonada por Comunicação, quis especializar-me na área e sempre a vi como uma mais-valia. Digamos que essa mais-valia se revelou apenas uma realização pessoal. Vejo pessoas da minha idade, sem curso superior, mais estáveis na vida do que eu, o que me faz pensar que algo neste país não está certo. Aliás, quando chegamos ao ponto de ter que ocultar competências e formações do nosso currículo, isso diz tudo.

Não existe incentivo para estudar, não existe dinheiro para estudar, não existe trabalho, mandam-nos para fora, queixam-se que a população é muito velha, queixam-se que a natalidade decresce. I wonder wtf these people want.

Mas continuo aqui: a lutar. Para ficar no meu país a trabalhar no que gosto. Onde vou parar amanhã? Não sei. Só sei que, perante o cenário atual, a minha vida resumir-se-á a sobrevivência.

Quem sabe, um dia, vá mesmo vender cachorros e ser feliz fora do país que insiste em mandar-me embora.

Here’s to the crazy ones, the misfits, the rebels, the troublemakers, the round pegs in the square holes… The ones who see things differently — they’re not fond of rules… You can quote them, disagree with them, glorify or vilify them, but the only thing you can’t do is ignore them because they change things… They push the human race forward, and while some may see them as the crazy ones, we see genius, because the ones who are crazy enough to think that they can change the world, are the ones who do.

Steve Jobs

T.

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