A depressão, o preconceito e a discriminação

Preconceito e discriminação

A depressão ainda é considerada um assunto tabu e, ao contrário do esperado e eticamente aceitável, muitas empresas  continuam a demonstrar intolerância, incompreensão, insatisfação, desconfiança, falta de credibilidade e rejeição, relativamente a pessoas com distúrbios psicológicos. Vamos abrir a mente?

O assunto é sério. Mais do que se possa imaginar. O problema começa com a falta de informação sobre a doença e, a meu ver, com a incompreensão de quem não tenciona entendê-la, por nunca ter que passar pelo “assunto”.

1. O que é a depressão?
De Acordo com o Dicionário de Termos Médicos, a depressão é:

“um estado mental caracterizado por diminuição do tónus neuro psíquico e que se manifesta com lassidão, fadiga, pessimismo e, por vezes, ansiedade”.

O Portal da Saúde acrescenta que:

“é uma condição médica definida que afeta 20 por cento da população portuguesa. (…) A depressão é a principal causa de incapacidades e a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis entre as 107 doenças e problemas de saúde mais relevantes. (…) Uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão. Um em cada cinco utentes dos cuidados de saúde primários portugueses encontra-se deprimido no momento da consulta. A depressão encontra-se reconhecida no Plano Nacional de Saúde 2000-2010 como um problema primordial de saúde pública.”

No passado ano de 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS), lançou uma animação bastante emocionante, com o intuito de alertar e explicar esta doença. O vídeo pode ser visualizado abaixo:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=dFKsN9J0hTM]

2. Quais são as causas?
A Clínica da Mente refere o seguinte:

“A Depressão é um estado introspetivo em que a nossa mente tenta processar emoções negativas e fortes de experiências vividas no passado e que, ainda hoje, nos perturbam, como a tristeza, a culpa, o ódio, a raiva, a angústia entre outras.É comum referir-se que a Depressão é consequência de um desequilíbrio químico do cérebro, mas nós sabemos que este desequilíbrio verificado no cérebro é uma consequência do estado depressivo. Assim, tratando o estado depressivo, altera-se o desequilíbrio bioquímico nas redes neurais.”

O Portal da Saúde acrescenta que:

“Determinar qual o factor ou os fatores que desencadearam a crise depressiva pode ser importante, pois para o doente poderá ser vantajoso aprender a evitar ou a lidar com esse factor durante o tratamento.”

3. Estatísticas
Em Janeiro do presente ano, o Notícias ao Minuto publicou uma notícia com base nos resultados estatísticos obtidos ao redor da depressão.
Aqui, podemos ter conhecimento de que:

  • Mundialmente, 350,000,000 pessoas lutam contra algum tipo de depressão;
  • 11% dos adolescentes têm depressão ainda antes de completar os 18 anos;
  • 30% dos estudantes já reportou sentimentos depressivos;
  • As mulheres são 70% mais propensas a ter uma depressão do que os homens, seja qual for o momento da vida;
  • Só nos Estados Unidos, 16 milhões de adultos tiveram um episódio de depressão grave em 2012 (6,9% de todos os adultos do país).

3. Testemunhos
A ex-deputada Marta Rebelo conta a sua experiência e dá a cara pela doença crónica, que a acompanha há 11 anos, numa entrevista à Revista Caras.

4. Implicações da depressão no mercado de trabalho
Este artigo é mais como que um alerta. Na verdade, a maioria dos meus artigos o é. O tema da depressão e das doenças mentais é ainda um assunto tabu na nossa sociedade, visto com preconceito e fazendo as pessoas sentirem vergonha, embaraço e não à vontade para revelarem essa parte de si aos seus possíveis recrutadores, superiores hierárquicos ou, até mesmo, aos próprios colegas.

O facto de se esconder o assunto, afastá-lo e rejeitá-lo não significa que este deixe de existir. Das duas uma: ou a pessoa passa a vida a esconder a sua realidade, por medo, mentindo e fingindo ser o que não é – tornando-se cansativo – ou não consegue escondê-lo, sendo alvo de críticas.

A discriminação é observada na nossa sociedade sob os mais diversos aspetos. Este é apenas mais um deles. Já aqui falámos do preconceito relativamente às tatuagens. Na minha opinião, este é mais grave, por diversas razões. Porque não se decide “ter uma depressão”. Porque as pessoas são olhadas de lado por estarem doentes, contribuindo isso para o agravamento do seu estado psíquico. Porque numa boa empresa não pode haver pessoas com esses problemas, pois não são fiáveis – quando o que não é de fiar é quando se força um trabalhador a esconder uma doença, pois, se não se sentir apoiado, aí, sim, a situação piora.

Afinal, até onde vai o preconceito neste mundo e até que ponto estão dispostos a ir para nos enterrarem cada vez mais? Para nos afastarem? Para nos fazerem sentir mais “sem chão” e sem esperança num futuro promissor?

Pode ler mais sobre a precariedade em Portugal neste link.

Quanto aos muitos que leem este artigo procurando uma luz de esperança, foi divulgado no passado mês de maio que o Serviço Nacional de Saúde criou uma aplicação móvel (plataforma digital, a ser prescrita pelo médico de família e disponível a partir de setembro do corrente ano) para autoajuda, em casos de depressões ligeiras a moderadas. Pode ler a notícia, detalhadamente, aqui.

Entretanto, uma palavra aos empregadores: motivem os vossos colaboradores.

Relativamente a esses colaboradores: procurem motivação nas pequenas coisas, como alterar rotinas, ajudar o outro, procurem atividades de grupo (é ótimo!), façam-se sentir acompanhados, não se prendam às novas tecnologias para manter as amizades, deem a vós próprios a oportunidade de sorrir. Permitam-se aprender a dominar o “cão negro”. Entendo que falar seja bonito e que há fases em que nada disto possa parecer possível e que nos possamos sentir completamente dominados. O mais importante é dar conta dos sinais e procurar ajuda, o mais rapidamente possível e de diversas formas: ajuda profissional, contar com o apoio de família e amigos mais chegados, entre outros.

Depressão não é fraqueza. Pelo contrário. Depressão é uma batalha diária em que todos os dias devemos olhar no espelho, sorrir e dizer “Hey black dog! You’re not fucking up with me any longer! I’m gonna squash you and beat the shit out of you!”. Ultrapassar uma depressão ou viver com uma é uma vitória diária, da qual deveremos apenas sentir orgulho por a ultrapassarmos.

Sejam felizes.
T.

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